Rui não tinha ninguém na família que desenhasse ou gostasse de escrever, mas desde criança ele sempre gostou de desenhar, de pintar e também de escrever. Na escola, ele conta que os colegas admiravam seus desenhos e a professora também. Estudou no Instituto de Educação do Amazonas (IEA), e a professora de educação artística era Dalva Santiago. Acostumado a desenhar e pintar em casa, Rui seguia seu próprio rumo nos desenhos, e a professora respeitava sua criatividade como aluno e reconhecia seu talento, incentivando-o na sua produção.
Os colegas também admiravam os desenhos de Rui e quando a professora dava tarefas de desenho para fazer em casa, que eram mais desafiadores, eles chamavam Rui para ir às suas casas e lá ele fazia uma sessão de desenhos para ajudar os amigos a tirar boas notas. Como contrapartida, os meninos o ajudavam em outras disciplinas e também passavam cola na hora das provas. Era uma permuta que dava certo para ambos os lados.
Em 1969, quando Rui estava com 14 anos, a Pinacoteca do Estado do Amazonas – funcionando na Biblioteca Pública, na rua Barroso, centro de Manaus – começou a oferecer oficinas de arte para estudantes da comunidade. Rui se matriculou, mas não se adaptou bem à disciplina dos cursos, pois havia adolescentes que, em grande parte do tempo, ficavam brincando com as tintas e não se concentravam no que os professores orientavam. Alguns até chegaram a atirar tinta pela janela para atingir pedestres que passavam pela rua. Como Rui estava acostumado com o ambiente calmo para produzir sua arte, deixou de frequentar o curso.
Contudo, a experiência lhe rendeu boas amizades com artistas locais, que atuavam como professores nos cursos de artes da Pinacoteca. Tornou-se amigo de Moacir Andrade (1927-2016), escritor, poeta e pintor, e passou a frequentar sua casa, ficando amigo da família. Outros professores que se tornaram seus amigos foram os artistas Manoel Borges (1944-1987), Álvaro Páscoa (1920-1997), Hanhnemann Bacelar (1948-1971), Afrânio de Castro (1931-1981), e o poeta e escritor Luiz Bacellar (1928-2012).
A convivência com esses artistas e a visita que Rui fazia aos locais onde eles produziam suas obras arte, o inspiravam a voltar para casa e produzir seus próprios trabalhos. Os amigos o incentivavam e o motivavam a buscar sua própria identidade na produção das suas pinturas. Assim, em 1982, Moacir Andrade propôs realizar uma exposição dos quadros de Rui Machado no Hall do Teatro Amazonas, pelo Projeto Hanhnemann.
Foi um grande desafio, porque uma das pessoas da organização do projeto exigiu que ele antes levasse os 15 quadros para o Teatro Amazonas para serem avaliados e assim obter a resposta se teria ou não seus quadros expostos. Naquela época, Rui não tinha carro, e tinha dificuldade para transportar os quadros para o “templo da cultura amazonense”. Propôs apresentar fotos, mas havia resistência.
No início dos anos 80, Rui havia conhecido o jornalista Carlos Aguiar, que o incentivava a mostrar seu trabalho para o público, fazendo papel de padrinho do novo artista da cidade. Então, o amigo deu apoio a ele, assim como Moacir Andrade que havia feito a proposta para a exposição e o diretor do Teatro Amazonas, José Tito Lindoso, também facilitou o processo de avaliação. Assim, os quadros foram apresentados em fotos para avaliação e aprovados para serem expostos.
Foi a primeira e inesquecível exposição, que deu abertura a tantas outras mais. O que foi surpreendente é que o público ficou tão impressionado com as obras do novo artista amazonense, que todos os quadros foram vendidos, exceto um: Travessia, que Rui não quis vender porque havia dado nome à exposição.
Naquele mesmo ano, o quadro Travessia foi inscrito numa exposição de um Salão Nacional de Artes em Brasília, patrocinado pelo Banco do Brasil. Foi então, na Capital Federal, que o jovem pintor recebeu a maior premiação entre todos os expositores e seu quadro ficou para o acervo do Banco do Brasil, que havia arcado com todas as despesas da viagem do jovem pintor.
Assim, de 1982 até o presente momento, Rui Machado já produziu 25 exposições individuais. Ele também já participou de várias exposições coletivas, e ganhou 25 prêmios, na maior parte em Manaus, mas também um em Brasília e outro no Rio de Janeiro.

Floresta e vida
Atualmente, Rui Machado está com a exposição individual “Amazônia: Arte & Fatos”, na Galeria de Artes do Instituto Cultural Brasil e Estados Unidos (Icbeu), até o dia 26 de novembro. A exposição está composta por 43 quadros inéditos, em tinta acrílica sobre tela, quase todos medindo 50 cm por 50 cm, sendo que há um único quadro, o maior, medindo 80 com por 80 cm, e que foi o que deu a identidade visual à exposição.
A abertura da exposição aconteceu por ocasião do 38º Simpósio dos Centros Binacionais das Escolas de Inglês, envolvendo Icbeu’s de todo o Brasil, assim como outras escolas de inglês do país. A referida exposição, aberta em 26 de outubro, foi uma das atividades culturais oferecidas aos participantes do simpósio, enquanto estavam no evento realizado em Manaus.
Rui relembra que recebeu, em julho de 2018, o convite do diretor do Icbeu, Luiz Fabian Pereira Barbosa, para produzir essa exposição. Na ocasião, o artista estava passando por um momento difícil na vida, pois recentemente havia perdido a mãe, Aurora Machado de Oliveira (2014-2017), com 93 anos, e logo depois a irmã, Maria de Fátima Machado de Oliveira Bringel (1949-2017), a quem considerava uma segunda mãe. Por isso, estava com dificuldade para se concentrar e produzir sua arte, porque ainda sentia muita tristeza e não tinha inspiração nem rumo para trabalhar.

(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Diante do convite para a exposição, perguntou a si mesmo: “Como vou encher uma galeria com quadros, se sequer consigo rabiscar”. Olhando para a frente, movendo a mão esquerda e depois articulando as duas mãos em movimentos integrados, o artista relembra-se que lhe veio um pensamento sobre criatividade e disse: “A criatividade é uma coisa que quanto mais se exercita mais floresce. Antes de começar, eu tive várias ideias e cheguei a pintar três quadros que não entraram na exposição, mas serviram para exercitar a minha criatividade. Eu queria exercitar a mente e a prática. Comecei a pintar folhagens e, a partir delas, fui pensando algo sobre a floresta e a vida cotidiana”.
A partir de então, a mente do artista entrou em ebulição e ele começou a pintar um indígena. A imagem dos povos indígenas sempre esteve em sua mente desde a infância, e com ela vinha outra imagem que era a cúpula do Teatro Amazonas, um ícone de Manaus. Assim como outros ícones como é o Corcovado para o Rio de Janeiro, a Torre Eifel para Paris e a Estátua da Liberdade para Nova Iorque, Rui quis integrar o símbolo da cidade com a imagem do habitante nativo original da região.
O curioso é que enquanto ele estava pintando esse quadro, outras ideias de outros quadros começaram vir à sua mente. Então, ele interrompeu o quadro do indígena e começou a pintar os demais. Assim, foi pintando um quadro atrás do outro, e só quanto terminou todos é que retomou o quadro maior, para fazer o acabamento da imagem do indígena com a cúpula do Teatro Amazonas sobre a cabeça. Por ter demorado um ano para ser concluído, esse quadro recebeu uma atenção especial, pois foi ele que abriu e depois fechou a produção artística e foi o escolhido para dar identidade à exposição. A imagem do quadro fez parte do banner, da capa do catálogo que contém as fotos de todos os quadros, e do processo de divulgação.
Amazônia devastada

(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Esse foi o quadro mais demorado da exposição, mas Rui não sabe dizer qual deles foi o mais desafiador. “Eu me envolvo muito com os quadros e eles fazem parte de mim. Quando começo um quadro, eu já o visualizo pronto.” O artista tem em seu atelier alguns artefatos como uma coleção de bancos indígenas, remos, máscaras, que servem para inspirá-lo. Mas cada imagem tem uma outra referência interna em sua mente, no momento em que ele está imaginando o que vai pintar. Por isso, quando a ação prática de pintar não condiz com a imagem de referência que ele formou na mente, no momento de criá-lo, ele elimina o quadro e começa tudo de novo.
“Cada quadro que eu fui terminando era o mais bonito. Aí, eu pintava o outro e era o mais bonito. Para mim, o melhor é o atual. Acho que me supero em cada um. A arte é vida e se você pensasse que o momento de ontem fosse o melhor, você viveria num eterno conflito. O momento presente é o mais importante. O passado foi importante no momento em que existiu. O presente é importante no momento dele. e o futuro será importante no momento em que existir”. Assim, Rui integrou sua arte com os fatos da vida na Amazônia, retratando a seca, o desmatamento, as queimadas, as habitações em palafitas e outras cenas do cotidiano.
Nas palavras do presidente do Icbeu, Luis Fabian Pereira Barbosa, as obras inéditas da atual exposição de Rui são “todas dedicadas à nossa terra, à nossa gente e à nossa memória. As folhas, cipós e devastação da floresta refletem-se nas luas (ou sóis) de Rui, fazendo desvelar uma leitura autêntica de diversas faces da nossa Amazônia: a indígena, a cabocla, a ribeirinha, a festejada por sua beleza, sabores e peculiaridades, a criticada por suas cicatrizes e enfermidades”.
O diretor do Icbeu Manaus Luis Fabian diz que o artista Rui Machado “retrata costumes, objetos, traços comportamentais e paisagens da realidade e do imaginário do caboclo amazônico”, sendo que a visão do artista faz “brotar o desejo e a esperança de preservação da Amazônia, de sua mata, de seu povo, de sua cultura”.
Para Rui, seu trabalho é a imaginação transformada em realidade artística: é uma mistura de “minhas emoções imaginárias e meu universo real e concreto”, por meio da qual ele valoriza o “ser e o existir”.
O visitante que for à exposição receberá de presente o catálogo produzido pelo Icbeu Manaus, com as fotos de todos os quadros do artista. O catálogo foi produzido pelo artista visual Marcicley Reggo e pelo fotógrafo Roumen Koynov. Nele consta, ainda, um CD com músicas de Rui Machado com outros músicos e cantores locais.

(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
Fonte: Amazônia Real
